segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Peixinho? Sim, prefiro carne

Rezava a lenda que outrora, por detrás de uma imensidão de pó, entulho, insectos e preguiça se escondia um estore. Um estore para lá do qual tudo acontecia. Um estore que tudo via. Um estore. A minha posição perante tudo isso? Não sei. Sou alérgico a pó. Não gosto de insectos. Tenho preguiça de mover o entulho. Mas aqui há um estore. Malditas lendas… Querem complicar o que à partida é fácil. Como os homens num “jantar de negócios”.

Local? Um banal restaurante perto de si. E muitos outros fora de mão. E tasquinhas. Ou caves. Até mesmo casas de pasto. Ou mandamos mesmo pastar o sítio concreto e passamos ao que interessa.

Tentei ultrapassar a fase da divagação. Não esta fácil.

Momento chave? Difícil escolher. A parte inicial é sempre espantosa. Chegam todos dando dois passos. Param. Olham para trás para o resto do grupo. Fingem rir de uma piada que algum deve ter mandado. Gente espirituosa os empresários de convívio. Dá-se então um primeiro momento de rara espectacularidade. Majestosa estupidez. Claro está, falo da discussão entre todos sobre a mesa a escolher em que nenhum está a ouvir o que o outro diz o empregado desiste de indicar o local apropriado pondo as mãos atrás das costas com os três menus indicados para as nove pessoas até que um destes sujeitos toma a iniciativa de se sentar numa mesa grande. Assim mesmo. Com toda esta confusão. Sem marcas de pontuação. Mas muitas vezes com sinais de “reservado”. Mas não para eles. Pouca sorte. Mas não para eles.

Próximo passo? Todos depositam o casaco nas costas das cadeiras, esticam efusivamente os braços num movimento tipicamente parolo de “vou ver o relógio mesmo que nem vá olhar para os ponteiros” com os dois braços ao mesmo tempo. Vendo que o movimento não surtiu o efeito desejado uns tomam a iniciativa de o repetir, outros, mais modestos, preferem apenas puxar as mangas da camisa para trás ou esfregar efusivamente as mãos. Desconheço a origem do movimento. Ou o seu objectivo. Mas a aceitação do mesmo é geral. Arrancam um pedaço de um pão. Depositam o restante no cesto comum. Levantam-se para lavar as mãos. Dispensa comentários.

Ponto-chave? A escolha do manjar. O mais extrovertido do grupo revela-se nesta fase. Atenção! Este é o responsável por despoletar todo um certame em torno do conteúdo dos escassos menus face a tanta procura. Também pelas risadas mais despropositadas. Pelas piadas mais infelizes. E por tocar em todos os assuntos que os outros gostariam de debater mas pelos quais não querem dar a cara. As derrotas do Benfica. Enfim. Profere então a questão demolidora: “Peixinho?”

Tudo está perdido. Nos próximos minutos irão passar do peixe à carne, da carne ao marisco, voltando mais tarde à carne, mas preferindo chamar o empregado para saber quais as suas sugestões. Sugestões prontamente aceites num clima de “O que é que ele sugeriu? Que é que isso interessa? Se ele diz que é bom eu quero! E este pãozinho? alguém quer mais? Manda vir mais pão, Pão nunca é demais!” Mas imediatamente esquecidas. Eles querem é “ver que peixinho tem p’raí”. O empregado vai certificar-se. Enquanto este não volta? Preferem carne. Tudo termina em bem quando se pede uma dose de cada tipo. Ou quando todos optam pelo mais reles bife grelhado. O vinho? Tão mau ou pior. Aqui, para além da indecisão, enfrentamos os egos dos pseudo conhecedores numa contenda sem tréguas. Ou real conhecimento, em muitos casos. O empregado mais uma vez é chamado a intervir só para ter trabalho. A sua opinião é sempre aceite. Mas imediatamente trocada por outra.

Jantares de negócios? Não é o meu estilo. Devo, por isso, rever o meu futuro? O que recomenda? Pois... Mas e que outras hipóteses tenho? Consegue dizer-me? Sei. Estava a falar de…?